Bets pressionam o endividamento
Texto: Redação Revista Anamaco
Dados de pesquisas de endividamento e inadimplência mostram que boa parte das famílias brasileiras está com dificuldades financeiras. Muitas vezes, até é possível sair do cadastro de inadimplentes, mas muitas pessoas voltam a ficar no “vermelho” pouco tempo após pagar as dívidas.
A Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), por exemplo, revela que o percentual de famílias que relataram ter dívidas a vencer (cartão de crédito, cheque especial, carnê deloja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa) voltou a crescer em janeiro (79,5%), superando em 3,4 pontos percentuais o resultado do ano passado e com o maior endividamento da série histórica.
Já o Indicador de Reincidência de Pessoas Físicas, apurado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) mostra que do total de negativações em fevereiro, 86,41% foram de devedores reincidentes, ou seja, consumidores que já tinham aparecido no cadastro de inadimplentes nos últimos 12 meses.
Diante desse cenário, Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e a FIA Business School acabam de divulgar uma pesquisa que mostra o peso dos juros, do crédito e das bets no bolso das famílias.
Batizado de Bets, Juros e Crédito: O que está impulsionando o crescimento da dívida das famílias, o estudo, que analisa o período entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025, indica que o endividamento das famílias brasileiras seguiu trajetória ascendente, ainda que com momentos de desaceleração ao longo desses anos.
A pesquisa revela que os juros elevados e maior oferta de crédito contribuíram para pressionar a dívida, reforçando a relação tradicional entre custo do dinheiro, expansão do crédito e comprometimento da renda.
No entanto, o estudo identificou um elemento adicional com impacto superior: a entrada e expansão das apostas esportivas on-line a partir de 2019. Os resultados indicam que o efeito das bets sobre a aceleração do endividamento supera, isoladamente, o impacto do crédito em relação à renda e das taxas de juros. Mais do que isso, mesmo quando somados, os efeitos de crédito e juros ainda ficam aquém do impacto associado à disseminação das apostas.
A pesquisa apresenta, ainda, o reflexo, nos Estados Unidos, da legalização das bets, em 2018, pela Suprema Corte. Por lá, houve um aumento rápido e persistente do volume de apostas, tanto no número de apostadores quanto no valor apostado ao longo do tempo. As apostas não substituem outros jogos de azar (como loterias ou poker on-line), mas reduzem de forma relevante a poupança e os investimentos financeiros.
Segundo o estudo, em média, a legalização reduz os aportes líquidos em corretoras em cerca de 14%, e cada US$ 1 gasto em apostas reduz quase US$ 1 em investimento no mercado financeiro.
Nos EUA, os efeitos negativos são concentrados em famílias financeiramente vulneráveis: aumento do endividamento no cartão de crédito; redução do crédito disponível; menor pagamento das faturas e aumento da frequência de cheque especial. Outro dado revela que famílias com menor poupança comprometem uma parcela maior da renda com apostas e sofrem deterioração mais intensa da saúde financeira.
A pesquisa reforça que o acesso às apostas esportivas on-line desloca recursos de investimentos produtivos para atividades de retorno esperado negativo, agravando a fragilidade financeira doméstica, sobretudo entre famílias já restritas. Embora gere receita tributária para os Estados, a expansão das apostas pode produzir custos econômicos e sociais relevantes no longo prazo.
De volta ao Brasil, o estudo conclui que, embora crédito e juros continuem sendo determinantes na dinâmica do endividamento, a rápida expansão das apostas esportivas surge como um novo e relevante vetor de pressão sobre as finanças das famílias.
Nesse cenário, há um desafio adicional de política econômica e regulatória, ao evidenciar que o crescimento desse mercado pode estar contribuindo para acelerar a vulnerabilidade financeira no País.
Foto: Adobe Stock




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