Brasileiro sente a inflação antes das pesquisas
Texto: Redação Revista Anamaco
O consumidor brasileiro não precisa esperar a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para saber que os preços subiram: ele sente - e digita isso no Google - no exato mês em que o choque acontece. É o que revela um novo estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar) FIA Business School, que cruzou 22 anos de dados oficiais de inflação (2004-2026) com o volume de buscas na internet por termos como "tá tudo caro", "preço do arroz" e "salário não dá".
A pesquisa aplicou o teste estatístico de Engle-Granger para verificar se o IPCA e o "termômetro digital" do consumidor caminham juntos ao longo do tempo - o que os economistas chamam de cointegração. O resultado expõe um paradoxo revelador da psicologia econômica do brasileiro. Quando os pesquisadores compararam o patamar total de preços com o volume acumulado de buscas ao longo das décadas, as duas séries não se mostraram cointegradas - ou seja, se descolam, continuamente, no longo prazo. Tradução: a memória do consumidor não guarda a conta de quanto a inflação já subiu no total.
Mas quando a lente muda para a variação mês a mês, a história se inverte: IPCA e buscas digitais mostram forte cointegração. O brasileiro pode não fazer a conta acumulada, mas sente cada freada ou arrancada da inflação em tempo real. “É como um motorista que não faz ideia de quantos quilômetros o carro já rodou no total, mas sente na hora qualquer buraco, lombada ou freada brusca no caminho. O "odômetro" da inflação não bate com a percepção acumulada, mas o "volante" - o ritmo de curto prazo - anda em sincronia quase perfeita com o que a população sente mês a mês”, afirma Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School.
O estudo também mediu a "meia-vida" do pânico inflacionário: leva cerca de 2,3 meses para metade do exagero emocional se dissipar, e cerca de 7,7 meses para o alarme se estabilizar por completo e a população voltar a enxergar a inflação com racionalidade. "A dor do consumidor com a inflação não é imaginação, mas tampouco é boa em matemática. A estatística oficial e o desespero do bolso estão, definitivamente, presos pela mesma coleira", resume Felisoni.
Foto: Adobe Stock




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