Inadimplência das empresas voltou a crescer
Texto: Redação Revista Anamaco
A inadimplência entre as empresas voltou a crescer em março e atingiu 8,9 milhões de CNPJs, segundo o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian. O resultado representa avanço em relação a fevereiro e mantém o indicador próximo ao maior nível da série histórica, registrado em dezembro de 2025.
No período, o total de dívidas negativadas chegou a 62 milhões, somando R$ 212,8 bilhões. Em média, cada empresa inadimplente possuía cerca de sete contas negativadas, com dívida média de R$ 23.992,97 por CNPJ e ticket médio de R$ 3.431,12.
Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa, explica que o comportamento da inadimplência reflete um conjunto de pressões que ainda não foram dissipadas. “O contingente de empresas com restrições de crédito segue elevado, refletindo a persistência de um ambiente financeiro ainda, significativamente, apertado. Apesar do início do ciclo de flexibilização monetária, as expectativas correntes para a taxa terminal indicam um ajuste insuficiente para promover uma reversão mais consistente das condições de crédito. O patamar ainda restritivo dos juros ao final do ciclo, aliado a spreads elevados e critérios de concessão mais cautelosos, limita a recomposição da capacidade financeira das empresas e dificulta a normalização da inadimplência no curto prazo”, frisa.
Segundo ela, como se trata de um indicador de estoque, a inadimplência incorpora um acúmulo de pressões financeiras ao longo do tempo, o que torna sua reversão mais lenta. “Em paralelo, o processo de desaceleração da atividade econômica tende a impactar o faturamento das empresas e dificultar a recomposição de caixa. Nesse contexto, ainda não há sinais consistentes de inflexão na trajetória da inadimplência”, complementa.
A decomposição da inadimplência por origem das dívidas evidencia uma predominância estrutural do setor não financeiro, responsável por cerca de três quartos do total das pendências. Esse grupo engloba, principalmente, dívidas com serviços, utilities, telefonia, varejo, securitizadoras, cooperativas e outros fornecedores ao longo da cadeia produtiva, refletindo o uso intensivo do chamado crédito comercial como instrumento de financiamento do capital de giro.
Já o setor financeiro, que inclui obrigações junto a bancos, cartões de crédito e financeiras, responde por uma parcela menor, mas relevante, e permanece condicionado por um ambiente de crédito restritivo, marcado por custo elevado, spreads altos e critérios de concessão mais conservadores. Essa combinação limita a capacidade das empresas de reestruturar passivos e alongar prazos, contribuindo para a persistência de um estoque elevado de inadimplência. “Uma parte importante das dívidas está relacionada a negociações com fornecedores e prestadores de serviços, que são amplamente utilizadas pelas empresas como forma de financiar a operação e equilibrar o fluxo de caixa. Em um ambiente de juros elevados e maior seletividade no crédito bancário, esse tipo de endividamento ganha ainda mais espaço, mas se torna mais difícil de administrar quando há acúmulo de pendências. Esse cenário acaba prolongando o processo de regularização financeira das empresas”, pontua Camila.
Regionalmente, o Sudeste concentrou o maior volume de empresas inadimplentes, com destaque para São Paulo (3.049.372), seguido por Minas Gerais (873.579) e Rio de Janeiro (860.493). Na sequência aparecem estados como Paraná (582.437) e Rio Grande do Sul (510.021). A concentração acompanha o peso econômico e a maior densidade empresarial dessas regiões.
As micro e pequenas empresas seguiram como maioria expressiva da inadimplência no País, com 8,4 milhões de CNPJs negativados em março. O grupo concentrou 56,3 milhões de dívidas e R$ 185,3 bilhões em débitos. Em média, cada micro e pequena empresa acumulou 6,7 contas negativadas, com dívida média de R$ 21.948,02 e ticket médio de R$ 3.293,51. “As micro e pequenas empresas são mais sensíveis a um ambiente de crédito restritivo, pois dependem majoritariamente de linhas de curto prazo e têm menor poder de negociação. Com os juros ainda em patamar elevado e a concessão de crédito mais seletiva, essas empresas enfrentam maior dificuldade para recompor o capital de giro. Esse quadro é agravado por desafios estruturais de gestão financeira, como menor capacidade de planejamento, controle de fluxo de caixa e alongamento de passivos, o que contribui para a persistência da inadimplência”, finaliza.
Foto: Adobe Stock




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