Pesquisa

Medo do crime organizado enfraquece o caixa do varejo brasileiro, mostra estudo

Textp: Redação Revista Anamaco

O crime organizado deixou de ser apenas uma pauta de segurança pública e se tornou uma linha de custo oculta no balanço do varejo brasileiro. É essa a conclusão central do relatório "O Custo Oculto da Bala", divulgado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar) e pela FIA Business School.
O estudo, cuja equipe técnica é formada pelos professores doutores Claudio Felisoni de Angelo, Carlos Eduardo Furlanetti, Nuno Manoel Martins Dias Fouto e Marcelo Felippe Figueira Jr., com a colaboração de Arthur Siqueira Ferrari, cruza mais de uma década de notícias sobre violência com dados de vendas e ocorrências criminais no Estado de São Paulo e Brasil e chega a uma frase que resume o diagnóstico: "a insegurança deixou de ser um problema social para se tornar um imposto invisível sobre o faturamento". 
Os números da pesquisa expõem a dimensão do problema. Para 58% da população, a criminalidade já é o principal problema do País - e essa percepção tem preço. Um terço dos empresários do varejo (33%) relata queda direta e imediata no número de clientes físicos; 13% dos negócios registraram migração forçada de vendas presenciais para o delivery, por medo do cliente de sair de casa; e 25% precisaram restringir o horário de funcionamento só para evitar a exposição noturna. 
O dado mais provocador do relatório é: o varejo brasileiro paga pela violência duas vezes, em momentos diferentes. A primeira fatura é emocional e imediata - vem da notícia, não do crime em si. Segundo o modelo econométrico do estudo, cada aumento relevante na cobertura jornalística sobre roubos e furtos provoca retração de vendas estatisticamente significativa já no mês em que a notícia é publicada, efeito que se mantém no mês seguinte. "O cliente cancela o plano de consumo no dia em que vê a manchete", resume o relatório.
A segunda fatura é estrutural e tardia, mas igualmente significativa. O crime registrado no bairro não abate as vendas no mesmo mês - ele planta uma retração que só aparece a partir do quarto mês e se intensifica de forma contínua. "O crime é uma ferida que piora com o tempo", diz o estudo. 
Entre 2012 e 2015, o volume de notícias sobre roubos e furtos cresceu 81% e, desde então, cristalizou-se em um platô de quase mil matérias por ano, garantindo que a percepção de risco nunca recue, mesmo quando a curva de ocorrências oscila. 
Diante desse cenário, lojistas brasileiros estão redesenhando a operação do negócio em torno do medo: alterando layout, deslocando o fluxo de caixa para o delivery e cortando horários — uma resposta defensiva que, segundo os pesquisadores, tem custo de oportunidade tão real quanto qualquer imposto formal. "A violência urbana não apenas mata pessoas, ela mata negócios: fecha lojas, afasta clientes e comprime faturamentos", afirma Claudio Felisoni, presidente do Ibevar e professor da FIA Business School. 
O relatório vai além do ciclo crime-mídia-consumo e aponta uma terceira variável, mais difícil de reverter: a infiltração de organizações criminosas no próprio aparato estatal. Para os autores da pesqisa, é esse fator que explica por que os números de violência não recuam de forma sustentável - a força que os gera deixou de ser um problema estritamente de rua. O resultado é o que o estudo chama de "retrato final": o varejo brasileiro paga três contas simultâneas - a da manchete (impacto imediato da percepção de risco), a do bairro (corrosão de caixa com defasagem) e a da instituição (a corrosão da esperança de solução, à medida que o crime se entranha no Estado). "A violência transformou a insegurança de um mero risco social em um imposto implacável e invisível sobre todos que tentam vender no Brasil", finaliza Felisoni.

Foto: Adobe Stock

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