Pegada de carbono varia até quatro vezes entre produtos de cimento equivalentes
Texto: Redação Revista Anamaco
Fabricantes de blocos e peças de concreto para pavimentação que atendem às mesmas normas técnicas e entregam produtos com desempenho equivalente podem apresentar diferenças de até quatro vezes na pegada de carbono. Em alguns casos, as empresas utilizaram o dobro da quantidade de cimento para alcançar resultados técnicos semelhantes.
A constatação faz parte do primeiro diagnóstico setorial nacional realizado no âmbito da Jornada Setorial de Baixo Carbono, conduzida pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos de Cimento (Sinaprocim), pelo Sindicato da Indústria de Produtos de Cimento do Estado de São Paulo (Sinprocim), pela Associação BlocoBrasil, pela Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) e pelo Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).
O levantamento foi elaborado com base em inventários reais de produção e em dados fornecidos pelas empresas. A análise considerou o consumo de matérias-primas, energia e água, a geração de resíduos, o transporte de insumos e as emissões de gases de efeito estufa.
As indústrias participantes são responsáveis por mais de 25% da produção nacional dos segmentos avaliados e fabricam, em média, 850 mil peças por mês. Todas produzem em conformidade com as normas técnicas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e são qualificadas no Programa Setorial da Qualidade (PSQ), no âmbito do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H).
Dessa forma, a amostra permite comparar produtos regulares e tecnicamente equivalentes, sem confrontá-los com material fora de especificação. Os resultados indicam que uma parcela relevante do potencial de redução das emissões está associada à eficiência produtiva e à gestão dos processos industriais e não apenas à adoção de novas tecnologias ou à matriz energética utilizada.
O estudo indica que, quando empregado em quantidade superior à tecnicamente necessária, o cimento aumenta a pegada de carbono do produto, eleva os custos de fabricação e reduz a competitividade da operação.
Anderson Augusto de Oliveira, engenheiro civil, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do Sinaprocim e do Sinprocim e gerente de Programas Setoriais da Qualidade no âmbito do PBQP-H, explica que dosagens mais precisas, modernização de equipamentos, controle das matérias-primas e revisão dos processos podem reduzir, ao mesmo tempo, o consumo de insumos, as emissões e os custos. “Não há como agir sem medir. Sem informação, não é possível corrigir processos, estabelecer prioridades ou definir metas de redução”, afirma.
Mesmo entre empresas qualificadas, o estudo identificou desafios de gestão. A análise dos balanços de massa apontou possibilidades de melhoria no controle dos estoques de matérias-primas e no registro da quantidade efetivamente produzida.
Também foram observadas dificuldades em medições básicas, como a densidade do material, o consumo de energia e o uso de diesel. “Essas falhas comprometem a precisão dos indicadores ambientais, dificultam a identificação de desperdícios e reduzem a capacidade de comparar resultados e estabelecer metas”, pontua Oliveira.
Ao reunir inventários de fábricas de diferentes portes e níveis de maturidade, o diagnóstico identificou desde processos altamente eficientes até operações que ainda apresentam lacunas de medição e controle. A comparação permite que cada empresa reconheça sua posição em relação ao conjunto do setor, identifique gargalos e direcione investimentos.
O estudo reforça que a pegada de carbono não depende apenas do que ocorre dentro da fábrica. A origem das matérias-primas e os percursos realizados até a unidade produtiva também interferem no resultado. “A compra de cimento em um Centro de Distribuição próximo, por exemplo, não significa, necessariamente, que o material tenha percorrido uma distância menor. Ele pode ter sido produzido em outro Estado e transportado por diferentes trechos e modais antes de chegar ao distribuidor”, alerta o executivo.
Ao organizar dados sobre insumos, energia, água, resíduos e transporte, os fabricantes passaram a identificar emissões que antes permaneciam fora da gestão cotidiana. As informações também ajudam a estabelecer referências nacionais de comparação, mais próximas das matérias-primas, das fontes de energia, dos processos industriais e das distâncias logísticas do mercado brasileiro. “Sem parâmetros nacionais consistentes, avaliações ambientais podem recorrer a médias genéricas ou a bases internacionais que nem sempre representam as condições reais de produção do País”, frisa.
O diagnóstico também pode apoiar a elaboração de Declarações de Desempenho Ambiental de Produto. Esses documentos reúnem indicadores mensuráveis sobre os impactos ambientais dos materiais e ajudam construtoras, projetistas, especificadores, investidores e instituições financeiras a avaliar produtos e fornecedores.
Oliveira destaca que a demanda crescente por informações ambientais reforça a necessidade de padronização técnica. “Ao incorporar critérios de emissão, rastreabilidade e consumo de recursos às especificações e aos processos de compra, o mercado pode estimular os fabricantes a investir em medição, eficiência e comprovação de desempenho. Qualidade e sustentabilidade, nesse contexto, não podem ser separadas. Produtos fora das normas podem comprometer a durabilidade das construções, exigir reparos ou substituições precoces e gerar novos custos, resíduos e emissões”, esclarece.
A Jornada Setorial de Baixo Carbono será ampliada com novas turmas de capacitação, aperfeiçoamento das ferramentas de inventário e maior participação de fabricantes. O objetivo é aumentar o número de empresas capazes de medir, rastrear, reduzir e comprovar os impactos ambientais de seus produtos.
A proposta é transformar os dados em instrumentos de gestão e permitir que cada fabricante estabeleça planos mensuráveis de redução. “Se produtos tecnicamente equivalentes podem apresentar uma diferença de até quatro vezes na pegada de carbono, conhecer esse desempenho torna-se relevante não apenas para a agenda ambiental, mas também para a competitividade e para as decisões de compra”, finaliza Oliveira.
Foto: Adobe Stock




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